domingo, 9 de janeiro de 2011

A escola do dia-a-dia

Outro dia, eu estava na capela, contemplando uma gravura da Família de Nazaré e pensando em Jesus, Maria e José, sobre como é difícil viver o dia-a-dia, como é difícil para nós viver o ordinário, a rotina.
Quando a gente lembra ou lê sobre a vida dos santos ou de grandes nomes da história, por mais completa que seja uma biografia, a gente só consegue enxergar os momentos pontuais da vida da pessoa. Isso acontece também com a própria Família de Nazaré. Só enxergamos os momentos pontuais: a anunciação, o caminho para Belém, a procura por abrigo, o nascimento, a visita dos reis e dos pastores, a fuga para o Egito, a volta para a Judéia, etc. Mas o dia-a-dia, o sol a sol, trabalhando, vivendo cada hora, cada momento, tudo lento, normal, corriqueiro, ordinário, é muito difícil.
Eu acredito que é justamente aí onde se escondem os atos heróicos das pessoas. Muito mais do que naqueles momentos pontuais em que os objetivos, as histórias se concretizaram. Esperar, dia a dia, que os desígnios de Deus se cumprissem naquele menino, que se sabia ser diferente, mas que no dia-a-dia se mostrava tão normal, acredito que não era nada fácil. Viver o corriqueiro é a grande escola de Deus na vida da gente. Nós nos preparamos para viver o extraordinário, não para o ordinário, para o dia-a-dia. Na escola, na sociedade, sempre nos preparam para tirar a nota dez, para passar no vestibular, para passar no concurso, ser o melhor. Sempre momentos pontuais.
Ninguém nos prepara para viver um dia depois do outro, o agora, o hoje. Não somos treinados para os fracassos e sucessos do dia-a-dia, para viver o ordinário da vida. E o pior (ou o melhor) é que Deus se manifesta justamente no ordinário.
Veja lá o exemplo da mulher samaritana (Jo 4, 4-14): Era mais um dia na vida dela. Estava na rotina de pegar água no poço, coisa que ela fazia várias vezes todos os dias. E em uma dessas vezes, naquele dia, que para ela era igual aos outros, Jesus apareceu e mudou toda a vida dela. Era mais um dia para ela, mas era o dia propício para Deus se manifestar.
Ou a gente se prepara para encontrar Deus no ordinário de nossas vidas ou vamos passar o resto da vida esperando o extraordinário acontecer para poder se realizar, se decidir, tomar uma atitude. E isso pode nunca acontecer. Como o extraordinário não é comum e por isso não sabemos quando vai acontecer, pode ser que ele aconteça e a gente não veja, não perceba ou simplesmente não esteja preparado no momento.
O mesmo aconteceu com Moisés (Ex 3, 1-10). Na rotina dele de pastorear o rebanho, no ordinário do dia-a-dia, se deu o extraordinário. Naquele dia, igual aos outros, mais um dia de rotina, ele foi um pouco mais além e encontrou a sarça ardente. Quer dizer… Não foi bem ele que encontrou a sarça ardente, foi ela que quis ser encontrada por ele. É Deus se manifestando no cotidiano. É engraçado como que, ao falar sobre a história de Moisés, a primeira coisa que lembramos é da fuga do Egito, do Mar Vermelho aberto para que o povo passasse a pé enxuto. Normalmente não se fala dos anos e anos em que ele viveu como um simples pastor de ovelhas. Sem saber, estava sendo preparado, na escola do dia-a-dia, para se tornar o pastor do povo de Deus.
Imagine os longos anos que separaram a fuga de Moisés do Egito, depois que matou um soldado, até esse momento de encontrar a sarça ardente e receber revelação da sua missão. Como Deus vai ensinando, vai treinando sem que a gente se dê conta. Para nós é só o dia-a-dia, o ordinário, a rotina… Para Deus, é a nossa escola. Uma escola que nos prepara para aquilo que ele quer de nós e que ainda não fazemos idéia do que seja.

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